No feriado de quinta-feira, dia 4, eu tinha feito planos simples:
- Ir ao aulão de crossfit.
- Chegar em casa e tomar banho.
- Jogar videogame.
Depois do treino, passei na casa da minha mãe. Ela pediu para levá-la ao mercado.
Tudo bem. O plano mudou um pouco:
- Ir ao aulão de crossfit.
- Tomar banho.
- Levar minha mãe ao mercado.
- Jogar videogame.
Mas a vida resolveu mudar tudo.
Quando voltei para a casa da minha mãe, percebi que o carro não estava na garagem.
Perguntei:
— Ué, cadê o carro? O que aconteceu?
Minha mãe, com uma expressão preocupada, respondeu:
— Vieram avisar que seu pai caiu na rua. Seu irmão foi lá ver o que aconteceu.
Pouco depois, meu irmão voltou e disse que o SAMU havia levado meu pai para o hospital.
Meu pai é uma pessoa difícil. Durante muitos anos, criou conflitos com praticamente todo mundo da família. Quando surgiu a necessidade de alguém ficar com ele no hospital, ninguém quis ir.
No fim, sobrou para mim.
Passei o dia inteiro lá, das nove da manhã até as oito da noite. Eu já estava exausto por causa do treino pesado de crossfit, e as horas pareciam não passar.
O que mais me chamou atenção foi o comportamento dele.
Quando os médicos homens faziam perguntas, ele respondia normalmente. Mas, quando eram médicas, principalmente as mais jovens, ele dizia que não lembrava das coisas, fazia confusão e parecia completamente perdido.
Em determinado momento, perguntei à médica por que ainda estávamos aguardando.
Ela explicou que o neurologista precisava avaliá-lo, porque ele parecia confuso e não estava respondendo corretamente às perguntas.
Quando o neurologista analisou a tomografia, não encontrou nada de errado e deu alta.
Mesmo assim, meu pai continuava dizendo que não lembrava de mim, não sabia meu nome e não sabia quem eu era.
Talvez alguém que estivesse vendo aquela cena pela primeira vez sentisse apenas pena dele.
Eu senti pena também.
Mas, ao mesmo tempo, senti algo diferente.
Ninguém naquele hospital viveu o que eu vivi. Ninguém conhece minha infância, os problemas que ele causou ou o sofrimento que minha mãe passou por causa dele.
Quem olhava de fora via um senhor fragilizado.
Eu via também toda a história que veio antes daquele momento.
Hoje ainda estou cansado e desanimado. Não apenas pelo tempo que passei no hospital, mas porque aquela situação me fez pensar em uma coisa que me assusta.
Será que um dia eu vou acabar assim?
Será que vou me tornar alguém de quem as pessoas se afastam? Alguém que precisa fingir ou chamar atenção para não ficar sozinho?
Apesar de tudo, sinto pena do meu pai.
E talvez uma das maiores lições que ele tenha me dado seja justamente esta: todos os dias eu tento não me tornar igual a ele.
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